STJ quebra sigilos bancário e fiscal por 10 anos de conselheiros; PF pediu prisão, mas MPF foi contra
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Operação Terceirização de Ouro cumpriu 28 mandados de busca e apreensão nesta quinta (Foto: Divulgação)
O ministro Francisco Falcão, do Superior Tribunal de Justiça, determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos três conselheiros do Tribunal de Contas do Estado por uma década, entre janeiro de 2012 e dezembro deste ano. A Polícia Federal pediu a prisão preventiva do presidente da corte, Iran Coelho das Neves, do corregedor-geral, Ronaldo Chadid, e do ex-presidente, Waldir Neves Barbosa, mas o Ministério Público Federal foi contra e opinou pelo monitoramento eletrônico.
No despacho de quarta-feira (7), cumprido ontem na Operação Terceirização de Ouro, denominação da 2ª fase da Mineração de Ouro, o magistrado destacou a gravidade das denúncias.
A situação dos conselheiros poderia ter sido muito pior. O delegado Marcos Damato, da Polícia Federal, pediu a prisão preventiva de três dos sete conselheiros do TCE, da chefe de gabinete de Chadid, Thais Xavier Ferreira da Costa, e do diretor de Gestão e Modernização, Douglas Avedikian. O monitoramento eletrônico será por seis meses para fiscalizar o cumprimento das cautelares, como proibição de acesso ao prédio do tribunal e de manter contato com os investigados.
"No caso concreto a medida se reveste de maior relevância, tendo em vista os indícios de envolvimento de Conselheiros de Tribunal de Contas na possível prática de crimes", pontuou o ministro. "As Cortes de Contas detêm uma das mais importantes e sensíveis atividades de Estado, que é zelar pela regularidade e higidez dos gastos públicos, coibindo e punindo os atos de improbidade administrativa e a malversação de recursos públicos", ressaltou, espantado com a robustez das provas apresentadas pela PF com base na Operação Mineração de Ouro.
"No caso em tela, os elementos de prova até então colhidos indicam graves irregularidades e ilegalidades na execução de certame licitatório e no emprego de recursos públicos no âmbito do próprio Tribunal de Contas, mediante a adoção de medidas para restringir o caráter competitivo de licitação milionária, formalizada nos últimos dias do ano e concluída com celeridade incomum, possivelmente para direcionamento e favorecimento da empresa DATAEASY CONSULTORIA E INFORMÁTICA LTDA", frisou Francisco Falcão.
"A hipótese criminal inicialmente aventada versava sobre a possível existência de funcionários terceirizados "fantasmas" contratados pela empresa DATAEASY para prestar serviços ao Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul. Os indícios apontavam a remuneração, com recursos públicos, de pessoas ligadas aos Conselheiros investigados sem qualificação ou capacitação para exercer as funções para as quais foram contratadas", afirmou.
"No tocante à execução do contrato, há robustos indícios de fraude e superfaturamento dos serviços, diante da ausência de controle por parte dos gestores do TCE/MS, ensejando o desvio de recursos públicos", ressaltou.
"A análise dos dados obtidos com as decisões de afastamento de sigilo bancário e fiscal anteriormente deferidas (CauInomCrim n. 21 e n. 58), trouxe robustos elementos de prova acerca de operações financeiras atípicas, possivelmente relacionadas ao desvio de recursos públicos, muitas delas com características de lavagem de ativos", explicou.
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"Os fatos até então constatados evidenciam a existência de graves irregularidades e ilegalidades em certame licitatório e contrato milionário formalizado no âmbito do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul, sistematicamente aditado, mesmo após a execução de fase ostensiva da presente investigação, em 08/06/2021, que apontou indícios de fraude e desvio de recursos públicos no seio da própria Corte de Contas", destacou.
O presidente do TCE, conselheiro Iran Coelho das Neves, aditou o contrato com a empresa, mesmo tendo sido colocado sob suspeita pela PF.
"No tocante ao Conselheiro WALDIR NEVES BARBOSA requer o "afastamento de sigilo fiscal, em relação ao período de 2009 a 2022, quanto a todos os imóveis relacionados nas declarações de imposto de renda – DIRPF de WALDIR NEVES BARBOSA em tal período, de forma que a Receita Federal busque identificar notas fiscais e outros documentos em nome de terceiros que tenham qualquer relação com tais imóveis, o que possivelmente permitirá calcular gastos com reformas, ampliações etc de imóveis de WALDIR NEVES, buscando-se a origem do dinheiro utilizado"", relatou, sobre o pedido da PF. Falcão autorizou a ampliação da quebra do sigilo fiscal de Neves no período de 23 anos.
"Representa, ainda, que "todos os dados, informações e documentos obtidos na presente investigação (como afastamentos de sigilo bancário, fiscal, telefônico, telemático, materiais apreendidos, assim como todas as demais provas obtidas), inclusive no decorrer desta, possam ser compartilhados com a Controladoria Geral da União e com a Receita Federal do Brasil, a fim de subsidiar as investigações, tendo em vista que os conhecimentos técnicos dos servidores de tais órgãos são necessários para a eficiência da presente investigação"(fl. 285) e que "os materiais apreendidos, dados, informações e documentos obtidos na presente investigação possam ser utilizados e vinculados aos Inquéritos n. 1192 e 1432 – STJ"", pontuou.
O ministro Francisco Falcão determinou a quebra do sigilo e bancário por uma década da Dataeasy e de 38 beneficiados pelos pagamentos no período do contrato do Tribunal de Contas. Ele ainda autorizou a quebra do sigilo telefônico e telemático dos acusados de integrar a organização criminosa.
Sobre a solicitação de dados junto ao COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), Falcão disse que não é necessário a autorização, porque o delegado poderá solicitar as informações com base em jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.